Novamente a vontade de esquecer tudo e todos, voltava a tona.
Não sabia bem se era a TPM, ou se era simplesmente um desânimo momentâneo...
Mas parava para pensar e... Sentia aquilo já havia tanto tempo...
E nunca sabia o que era.
Talvez não estivesse mais feliz com nada?
Talvez nada mais a satisfizesse?
Nada sabia, não tinha resposta de nada. Outra vez. Como sempre.
A vida dela era uma constante dúvida, uma trama de perguntas sem respostas, ou de perguntas que ela não quisesse responder, e quando sentisse essa vontade, queria acertar, mesmo sabendo que a resposta está errada.
Parou de sonhar.
Parou de acreditar.
Sim, talvez fosse momentâneo.
Mas suas dores de estômago não eram momentâneas. E sim constantes.
Assim como a vontade de fingir estar tudo bem.
Assim como a saudade que ela sentia de quem parecia distante.
Assim como a vontade de dormir e nem acordar mais.
Tudo é passageiro, mas tudo a fazia pensar demais.
E pensar estava a deixando cada vez mais cansada.
Não via futuro.
Nenhum.
Futuro nenhum.
Como pode?
Como é possível uma mulher, de 21 anos, não ter perspectiva nenhuma e ainda desistir daquilo que têm?
Coragem.
Falta de coragem, talvez.
Covardia.
Excesso de covardia, apesar da vontade enorme de quase jogar tudo pelos ares e ir embora.
Cansada de tudo, cansada de todos.
Cansada de pensar na vida, que sempre prega peças e fica a testando.
Cansada, inclusive, daquilo que a cansava.
~*~
Lembrou-se de uma historinha, onde havia um monstro de máscara, que escondia o que tinha por dentro, parecia sempre muito feliz e sorridente, sempre com muitos conhecidos à sua volta, e sempre visto como o mais simpático da turma, e não mostrava sua verdadeira face a ninguém. Talvez ninguém conheça àquele monstro do jeito que ele realmente é, sem máscara, infeliz. E talvez ninguém soubesse a dor que ele sentia de se esconder, de fingir ser algo que na verdade não era. Na historinha, ele sempre ficava deitado em sua cama, pouco antes de adormecer, pensando em como seria bom, se toda aquela "mentira feliz", fosse uma "verdade feliz". E ainda deitado, já sonolento, lembrava do trecho de uma música de Fábio Góes:
"Eu já fingi ser muito melhor
Eu já aprendi ser pior
Mas sem mentira"
...
Mentia. Aquele monstrinho mentia para ele mesmo. Sabia que nem tudo estava bem e sentia vontade de conversar com alguém sobre isso. Havia um amigo, mas... Não, ele nao entenderia. Havia aquele outro, que... Não, talvez ele pensasse que era brincadeira. Sim, e tem aquele que... Não, não tem nem como. Claro, como nao lembrou de... Ele diria que ficaria tudo bem, sem nem mesmo o ouvir. E sempre tem aquele do "deixa disso". O que poderia fazer? Se mesmo aquela que o conhecia de verdade, dizia o amar, estava junto, ao seu lado, apenas lhe dava dois tapinhas nas costas, um abraço morno e dizia que tudo ficaria bem e que não poderia ficar assim?
Tentava de todas as formas esconder o que o deixava aflito, mas sozinho, no banho, e na cama, lembrava, pensava e ficava triste, chorava, sentia raiva, vontade de quebrar tudo que estivesse a sua volta. E durante todos os anos tem sido assim. Porém, as coisas andaram piorando no último ano.
Que tipo de vida era aquela? Que tipo de sentimento era aquele? Por que se sentia tão covarde, tão mole, tão desgostoso da vida? Por quê? Queria estar feliz, viver a felicidade que trasparecia a todos, à todo momento. Queria passar por épocas felizes, não somente horas, mas sim épocas, à longo prazo, duradouros. Inesquecíveis... Pois até os momentos que ele antes julgava inesquecíveis, ele ia perdendo, deixando fugir, esquecendo...
Enfim, o monstro, na verdade era ela mesma, sem véu, sem máscara.
E sem mentira.