quarta-feira, agosto 10, 2011

Cemitério...

O vento soprava mais forte e gelado naquela manha. O lugar que ela estava era mais alto que o resto da cidade, e então, ventava mais.
Ela odiava aquele lugar, por ele remeter a tantas lembranças ruins, mas ao mesmo tempo, era ali que se sentia em paz, e ali não se ouvia os sons dos carros, das motos, da grande confusão urbana. Só se ouvia o silêncio. As lágrimas saudosas de alguém que havia perdido um outro alguém, e o barulho das árvores balançando, ou dos pequenos pássaros que por ali passeavam e até mesmo do próprio vento, como num filme de terror. Se ouvia os pensamentos e preces. Minhas, e de tantas outras pessoas que sentiam saudade, que sentiam falta de alguém. E ela sentia que, apesar de tudo, aquele lugar queria passar um conforto, com as cores das flores, em tantos vasos espalhados pelo chão. Mas em poucos dias elas murchariam. Em poucos dias, elas se tornariam tristes e sem cor e então morreriam, trazendo novamente a sensação de perda, de melancolia, de algo que era tão vivo e colorido, e que lhe foi tirada a vida, como em todos os ciclos.
Ela olhou a seu redor e ali, de todos que estavam ao seu lado, era ela que se sentia a mais fraca. E se escondia.
Logo seria Dia dos Pais e ela sentia um aperto enorme sempre que chegava o mês de agosto. Ela sentia uma adaga ser torcida contra seu peito. Por mais que o tempo passasse, se sentia cada vez mais anestesiada, mas a dor ainda era presente. E aquela dor doía mais ainda em certas épocas do ano. Ela perdeu a base de tudo naquela noite abafada há anos atrás, quando o engenheiro elétrico apagou as luzes de quase toda a América do Sul, anunciando sua partida. E ela nunca mais foi a mesma. Machuca, dói. E ela não sabe para onde correr, não há quem a ajude a enxugar suas lágrimas, saudade, falta, coisa que achava que ninguém entenderia, doía, e como doía. Doía tanto da própria dor, doía tanto por estar sozinha. Doía tanto ver tanta gente e fingir ser tão feliz quanto elas, doía tanto querer chorar e soluçar e não conseguir. Doía tanto aquele vento gélido em seu rosto que faziam suas lágrimas congelarem e se despedaçarem quando caíam na grama. Doía tanto aquela saudade que a rasgava por dentro, saudade que nem as boas coisas, as boas lembranças afastavam. Doía. Ela estava tão cansada de tanta coisa que às vezes gostaria de trocar de lugar com aquele que havia levado seu chão. Ela queria que as pessoas entendessem o que se passava naquele coração aflito e em meio a tanto silêncio, ela queria gritar, queria um abraço, um ombro, queria tirar aquela adaga que a acompanhava já havia tanto tempo, mas ainda não tinha forças para tanto.
Olhou para o nome que estava gravado naquele pedaço de pedra. Sentia orgulho cada vez que olhava para aquele nome. Era daquele nome que sempre tirou esperança e forças para tentar de novo. Era daquele nome que sentia orgulho desde criança, nome único.
Aquele lugar remetia a lembranças ruins. À dores irreparáveis. Mas gostava de ficar sozinha e pensar em tudo, olhando aquele nome. Mórbido? Melancólico? Talvez. Mas quando lhe foi tirado a única coisa material que restava, quando a sua última ligação com aquele cara se foi, ela achou que precisava ir até lá, naquele lugar. Olhar aquele nome, e lembrar de tanta coisa boa...
A ponto de sentir a presença dele. A ponto de sorrir e dizer a si mesma, em pensamento, num silêncio que a fazia ficar surda: ''Sei que acreditava em mim. Seu último sorriso foi pra mim e o último carinho fui eu que senti. Sei que não me deixaria desistir. E eu não vou.''

Nenhum comentário: