terça-feira, agosto 23, 2011

Que droga!


Ela não gostava muito dessa sensação de não saber o que estava sentindo.
E não suportava a sensação de estar anestesiada, ver a movimentação a sua volta e não sentir dor nenhuma. A falta de dor a deixava agoniada! Ao mesmo tempo aliviada, pois a dor, se a sentisse, seria insuportável.
Estava deitada naquela cama à horas e não sabia o que sentia. Aliás, não sentia nada! O que era pior!
Não sentia tristeza, não sentia dor, não sentia alivio, não sentia felicidade, não sentia.
Não sentia.
E não sentir, era a pior sensação do mundo.
Porque não sentia, porque não sabia, só via e deixava ir, e não sabia, e não sentia...
Queria dormir só para não sentir aquilo que não conseguia sentir.
Queria ficar acordada pra ver se finalmente sentia alguma coisa.
Mas a verdade era que nem conseguia dormir por estar tão sem sentir nada.

Que droga!

domingo, agosto 14, 2011

Feliz Dia dos Pais...

Quanta falta eu sinto das nossas conversas sobre carros novos, antigos, rodas, volantes e aerofólios...
Quanta falta eu sinto, de ver sentado na mesa da cozinha, mexendo na chave do seu carro e sempre trocando de chaveiro...
Quanta falta eu sinto, de te ver sentado, sempre na mesa da cozinha, fazendo contas e planejando como iria mandar fazer o próximo móvel da casa...
Quanta falta eu sinto, de te ver sentado no sofá, fazendo carinho na cabeça do meu irmão, que adormecia no seu colo, todas as noites, enquanto assistiam juntos aos seus desenhos favoritos, e quando minha mãe o chamava para ir dormir na cama, ele acordava correndo, e você sempre morria de rir da carinha de assustado que ele fazia...
Quanta falta eu sinto de acordar cedinho só para ir a feira com você, e cumprimentar todos os donos de barracas de frutas e te ajudar a escolher sempre as melhores laranjas...
Quanta falta eu sinto, de te ver descendo a escada de madrugada, pra “tomar um lanchinho”, e você perguntar se eu estava fazendo algum trabalho complicado de novo, e dizer que nenhum professor me dava folga...
Quanta falta eu sinto, de te ver sentado no sofá, ouvindo meu irmão pequeno lendo alguma coisa pra você...
Quanta falta eu sinto, de te ouvir todos os dias perguntando, animado: “tudo bem aí?” quando eu ou meu irmão voltávamos da rua...
Quanta falta eu sinto, de te ver lendo os dicionários de japonês, ainda que eu nunca soubesse o que tanto você procurava...
Quanta falta eu sinto, quando do nada, você falava que ia pedir comida de fora, em algum restaurante, ou lugar diferente e você ria, porque minha mãe ficava louca, já que ela já tinha preparado a comida...
Quanta falta eu sinto, de irmos ao bairro da Liberdade de domingo e almoçarmos e conversarmos juntos, sempre no mesmo restaurante e depois irmos as compras e enchermos o carro de coisas, e a avó brigar com a gente...
Quanta falta eu sinto, de quando íamos ao mercado, fugíamos da avó e enchíamos o carrinho de compras de besteira e porcaria, e quando a encontrávamos de novo, sempre tomávamos bronca dela e você sorria pra mim...
Quanta falta eu sinto, de te ver descascando varias laranjas e sempre as deixando na geladeira, para quem quisesse comer...
Quanta falta eu sinto, de te ver parado, na porta da garagem olhando o movimento da rua...
Quanta falta eu sinto, de sempre juntarmos tampinhas e anéis de latinha da Coca-cola juntos, e irmos trocar por ursos, miniaturas e chaveiros...
Quanta falta eu sinto, de quando eu e a avó jogávamos vídeo-game e você sempre perguntava quem estava ganhando e quando eu levantava a mão e dizia que era eu, sempre falava que eu não parava de roubar...
Quanta falta eu sinto, de você pedindo para imprimir envelopes com os nomes de cada um da família, para colocar o seu presente de Natal...
Quanta falta eu sinto, de estar sentada na cozinha de madrugada, e escutar você andando no andar de cima da casa, saindo do seu quarto e indo ao banheiro...
Quanta falta eu sinto, de sentar com você no sofá e assistir aos programas que falavam sobre os animais que sempre tanto te admiraram...
Quanta falta eu sinto, de te ouvir comentando sobre os suricatas e dizendo o quanto os achava engraçados...
Quanta falta eu sinto, da sua carinha séria, sempre fechada e de poucos amigos que você tinha, mesmo quando estava todo mundo cantando Parabéns Pra Você, no seu aniversário...
Quanta falta eu sinto, de quando você me chamava e me avisava que na geladeira, tinha kiwi descascado para mim e morango cortado para meu irmão...
Quanta falta eu sinto, quando você ia ao mercado e comprava varias coisas para fazer para a janta e minha mãe ficava doidinha sem saber o que fazer primeiro...
Quanta falta eu sinto, das suas histórias da época em que trabalhava...
Quanta falta eu sinto, de quando você parava de pé na sala, colocava as mãos na cintura e ficava olhando enquanto eu tirava as cortinas para lavar...
Quanta falta eu sinto, de quando a imagem da tv ficava ruim e você subia no telhado, não importando a hora que fosse, para mexer na antena, e o quanto você ficou feliz quando viu que não ia precisar mais fazer isso, quando ligamos a tv a cabo...
Quanta falta eu sinto, de fazer sempre os presentes do Dia dos Pais, na escola, pensando em você, e os professores perguntando “por que para o avô?”, e eu respondia que era porque você era meu único pai...
Quanta falta eu sinto, de quando íamos comprar caixas e caixas de picolé, e eu ficava brincando com o gelo seco que vinha dentro das caixas...
Quanta falta eu sinto, de quando te ouvia xingando os jogadores de “fominha”, ou reclamando que eles nunca passam a bola, e que não estão com nada...
Quanta falta eu sinto, quando você ia comigo até banca de jornal, comprava todas as figurinhas da banca, sentava comigo no chão da sala, me ajudava a colar todas elas no álbum e sempre reclamava da quantidade de figurinhas que vinham repetidas...
Quanta falta eu sinto, de quando você me buscava de carro na escola e quando estávamos quase em casa, você falava todo animado que no almoço teria comida diferente...
Quanta falta eu sinto, de quando pequena, ficar te imitando, ao seu lado, enquanto você dirigia...
Quanta falta eu sinto, de ver sua carinha de sem graça quando alguém te dava algum presente e você só falava “bigado” e abaixava a cabeça, e eu ria, porque eu sentia o quanto você ficava envergonhado...
Quanta falta eu sinto, de toda quinta feira irmos a feira e você comprar sempre dois pasteis e duas cocas, sempre um de carne para você e algum diferente para mim...
Quanta falta eu sinto, de todos os dias a tarde, do nada, você virar e falar que ia “tirar uma sonequinha”...
Quanta falta eu sinto, de todas as noites, passar pelo seu quarto e te ver deitado na cama, e as vezes ate te ver sorrindo, lendo os gibis da Mônica...
Quanta falta eu sinto, de passar por você quando estivesse sentado e te fazer um carinho nas costas, ou no ombro...
Quanta falta eu sinto de te dar um “oie” todos os dias, independente do horário, independente do que fazíamos... Simplesmente nos encontrávamos em casa, eu te dava um “oi” e você sempre me respondia com um “oi” e um carinho na cabeça...

Como era gostoso sentir que você tinha orgulho de mim, quando você ia assistir minhas apresentações na escolinha, quando eu mostrava meus boletins, quando eu dizia que estava de férias e tinha passado de ano, e quando eu mostrava os meus trabalhos da faculdade...

Tanta coisa que passamos juntos, tantas broncas, as vezes ate tantas brigas, mas sempre como se fossemos pai e filha, e ate hoje não entendo, sendo que você é só meu avô, como pude ter essa ligação tão forte, que com ninguém mais eu consigo ter. Quanta saudade, como queria ter você aqui para cuidar de mim e perguntar se está tudo bem, como sinto falta do seu aperto de mão, do seu carinho na minha cabeça, quanta vontade de te abraçar novamente, de te dar um beijo de boa noite, de te dar um “oi” de bom dia... Do seu sorriso, e da sua risada, coisas que eram raras, de tão sério que você era... Quanta saudade de você...

Minha base. Meu pai. Uma pessoa que eu tinha orgulho quando todos diziam que eu me parecia com ele, e perguntavam a ele se eu era sua filha. E ele não negava, mesmo eu sendo sua neta.
Meu exemplo. Minha força. Aquele que mesmo quando sentia dores e tudo parecia mal, sempre fazia as pessoas a sua volta sorrirem, com alguma piada.
Meu guerreiro. Meu patrocínio. Apesar de sua carinha de bravo, uma pessoa extremamente carinhosa e amorosa, que sempre olhava pra mim quando eu estava triste e perguntava por que estava quietinha, ou fazia carinho na minha cabeça quando eu estava sentada, lendo alguma coisa.
Meu velho. Meu querido. O cara que toda noite de sábado, piscava e sorria pra mim, e eu sempre entendia que aquela noite, seria a noite de comermos pizza, todos juntos, sentados a mesa, falando besteira.
Meu conselheiro. Meu protetor. Aquele que sempre que me via dormindo no sofá, abraçada com as matérias de provas, me cobria com um cobertor, aquele que sempre cuidava de mim e sei que independente de onde estiver, vai estar sempre olhando por mim. Para sempre o terei em meu coração e pensamento, porque você sim foi mais que meu avô. Foi meu pai. E foi sempre com você que eu tive essa ligação tão forte, que não tenho com mais ninguém.

Obrigada por tudo. Eu amo você, pai. Para sempre.

sexta-feira, agosto 12, 2011

Escrevendo

As coisas felizes a inspiram...
Mas as coisas tristes também a fazem escrever...
Afinal, ela sente tudo a flor da pele...
Ela chora, ela sorri, e tudo como se fosse para ficar marcado para sempre...
Ela observa, ela lê e disso tudo ela escreve...
Ela só quer um lugarzinho marcado, num universo da qual ela já pertence...
E ela vai continuar escrevendo...

quarta-feira, agosto 10, 2011

Cemitério...

O vento soprava mais forte e gelado naquela manha. O lugar que ela estava era mais alto que o resto da cidade, e então, ventava mais.
Ela odiava aquele lugar, por ele remeter a tantas lembranças ruins, mas ao mesmo tempo, era ali que se sentia em paz, e ali não se ouvia os sons dos carros, das motos, da grande confusão urbana. Só se ouvia o silêncio. As lágrimas saudosas de alguém que havia perdido um outro alguém, e o barulho das árvores balançando, ou dos pequenos pássaros que por ali passeavam e até mesmo do próprio vento, como num filme de terror. Se ouvia os pensamentos e preces. Minhas, e de tantas outras pessoas que sentiam saudade, que sentiam falta de alguém. E ela sentia que, apesar de tudo, aquele lugar queria passar um conforto, com as cores das flores, em tantos vasos espalhados pelo chão. Mas em poucos dias elas murchariam. Em poucos dias, elas se tornariam tristes e sem cor e então morreriam, trazendo novamente a sensação de perda, de melancolia, de algo que era tão vivo e colorido, e que lhe foi tirada a vida, como em todos os ciclos.
Ela olhou a seu redor e ali, de todos que estavam ao seu lado, era ela que se sentia a mais fraca. E se escondia.
Logo seria Dia dos Pais e ela sentia um aperto enorme sempre que chegava o mês de agosto. Ela sentia uma adaga ser torcida contra seu peito. Por mais que o tempo passasse, se sentia cada vez mais anestesiada, mas a dor ainda era presente. E aquela dor doía mais ainda em certas épocas do ano. Ela perdeu a base de tudo naquela noite abafada há anos atrás, quando o engenheiro elétrico apagou as luzes de quase toda a América do Sul, anunciando sua partida. E ela nunca mais foi a mesma. Machuca, dói. E ela não sabe para onde correr, não há quem a ajude a enxugar suas lágrimas, saudade, falta, coisa que achava que ninguém entenderia, doía, e como doía. Doía tanto da própria dor, doía tanto por estar sozinha. Doía tanto ver tanta gente e fingir ser tão feliz quanto elas, doía tanto querer chorar e soluçar e não conseguir. Doía tanto aquele vento gélido em seu rosto que faziam suas lágrimas congelarem e se despedaçarem quando caíam na grama. Doía tanto aquela saudade que a rasgava por dentro, saudade que nem as boas coisas, as boas lembranças afastavam. Doía. Ela estava tão cansada de tanta coisa que às vezes gostaria de trocar de lugar com aquele que havia levado seu chão. Ela queria que as pessoas entendessem o que se passava naquele coração aflito e em meio a tanto silêncio, ela queria gritar, queria um abraço, um ombro, queria tirar aquela adaga que a acompanhava já havia tanto tempo, mas ainda não tinha forças para tanto.
Olhou para o nome que estava gravado naquele pedaço de pedra. Sentia orgulho cada vez que olhava para aquele nome. Era daquele nome que sempre tirou esperança e forças para tentar de novo. Era daquele nome que sentia orgulho desde criança, nome único.
Aquele lugar remetia a lembranças ruins. À dores irreparáveis. Mas gostava de ficar sozinha e pensar em tudo, olhando aquele nome. Mórbido? Melancólico? Talvez. Mas quando lhe foi tirado a única coisa material que restava, quando a sua última ligação com aquele cara se foi, ela achou que precisava ir até lá, naquele lugar. Olhar aquele nome, e lembrar de tanta coisa boa...
A ponto de sentir a presença dele. A ponto de sorrir e dizer a si mesma, em pensamento, num silêncio que a fazia ficar surda: ''Sei que acreditava em mim. Seu último sorriso foi pra mim e o último carinho fui eu que senti. Sei que não me deixaria desistir. E eu não vou.''

terça-feira, agosto 09, 2011

Pegou estrada e...

Inspiração e a falta dela a faziam se sentir confusa. Seus próprios pensamentos a faziam se sentir confusa, ela não entendia nem o que se passava dentro dela, apesar de ser tudo tão claro e compreensível, e tudo tão obscuro, misterioso.
Ela se sentia bem em andar na rua embaixo do sereno, olhando para nada, observando tudo, num silêncio ensurdecedor, onde todos os barulhos a faziam sentir uma tranquilidade incômoda.
Queria pensar mas queria deixar tudo como uma parede branca e não pensar em nada. Confusão mas ao mesmo tempo total entendimento do que acontecia, do que era. Do que seria ou jamais seria. Do que foi ou jamais foi.
Uma lágrima, talvez sem sentido, talvez com sentimento, talvez incompreendido. Talvez triste, talvez com uma raiva que a rasgava por dentro. E então outra lágrima, e outra, e mais outra.
Lágrimas que já não eram mais salgadas, mas amargas, cheias de raiva, cheias de dor.
Lágrimas por aquilo que haviam levado dela, lágrimas por aquilo que a tiraram dela.
Ninguém nunca entenderia o que se passou dentro dela para que as lágrimas se tornassem tão afiadas, a ponto de machucá-la, ao sair.
Era como se ela sentisse seus olhos ardendo, como se cacos de vidro saíssem de dentro de seus olhos.
E então passou.
Já não havia mais nada a ser feito, e então ela parou.
Parou por vergonha. Não queria que ninguém a visse assim, não queria que ninguém mais caçoasse dela, queria colo, queria parar com tudo aquilo e por mais magoada que estivesse, queria esquecer tudo aquilo.
Mesmo porque... O que fazer com o rancor?
Aquilo doía, mas...O que poderia fazer?
Então ela respirou fundo, parou. Secou suas lágrimas e se calou. Não disse mais nada a mais ninguém.
Esqueceu do mundo, das dores, de tudo. Pegou a estrada e...

Se foi.