Como num ritual, ela abria os cadeados dos portões de sua casa, que eram colocados todos os dias, sempre no fim da noite anterior. Logo começaria a movimentação matutina, a de todos os dias, novamente.
Já era automático: ela abria os cadeados, pegava os jornais jogados no chão da garagem, e voltava para dentro de casa, sem nem prestar atenção em mais nada.
Mas ao olhar para cima, por entre as enormes grades daquele portão barulhento, que sempre rangia ao abrir e fechar, ela percebeu alguma coisa diferente, e foi para a rua, tentando entender o que havia de errado.
Não havia nada de errado.
Sentou-se na calçada e olhou para cima, e se deu conta que, naquela manhã, o céu tinha um tom azulado diferente. Algumas estrelas ainda brilhavam, e às seis da manhã, a lua, bela em sua unicidade, ainda estava lá.
Pensou. E tentou calcular quantas pessoas conseguiam parar e olhar para o céu, com os olhos de uma criança e sonhar, ainda mais às seis horas, de uma manhã de verão estranhamente fresca.
Lembrou-se das tardes quentes de verão, das férias da escola, em que se sentava à sombra das pequenas árvores que ficavam em seu jardim, e mesmo que o Sol estivesse escaldante, ainda assim o fazia, só para aproveitar o momento, e sentir aquela sensação gostosa, que não sabia descrever.
Pensou. E tentou calcular quantas pessoas faziam o mesmo, e se sentavam à sombra de uma árvore qualquer, só pra sentir aquela coisa gostosa, sem explicação.
Perdida em seus pensamentos, ainda olhando para o céu, se permitiu lembrar de uma coisa, talvez que nada tivesse a ver com o que olhava, talvez que nada tivesse a ver com nada, mas ela só se lembrou. Uma vez, alguém havia lhe dito que ela tinha uma estrela, desenhada em seus olhos, fazendo seu olhar único, o mais especial.
Pensou. E tentou calcular quantas pessoas se lembravam da real cor dos olhos de quem as faziam sorrir.
Pensou ainda, em quantas pessoas olhavam para o céu e lembravam das pessoas que as faziam feliz.
Levantou-se e entrou em sua casa, balançando a cabeça, negativamente, e pensando no quanto é incrível como as pequenas coisas se perdiam no tempo...
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